Aqui no meu estabelecimento rural, tenho instalado um sistema de secagem de grãos. Não é muito moderno, mas funciona. Com esse sistema, consigo secar metade da minha safra de arroz. E faz parte dele uma máquina de pré-limpeza, cuja função, para quem não conhece, é limpar o grão antes de ele ser colocado no secador.
Essa máquina tem umas peneiras, que separam grãos e palha, além de um ventilador que sopra os grãos de arroz falhados. Esse ventilador, na realidade, é um motorzinho elétrico de 1 hp, que aciona uma ventoinha. O fabricante do equipamento optou por utilizar uma ventoinha de Opala, modelo da década de 70, para este ventilador.Tudo funciona muito bem, mas a casca do arroz é uma lixa. Com o passar do tempo, vai raspando o ferro. E, cedo ou tarde, torna necessário substituir a tal ventoinha.
No inicio era fácil. Agora, porém, está ficando cada vez mais difícil encontrar uma ventoinha de Opala modelo anos 70. É uma ventoinha metálica, diferente das de hoje em dia, plásticas. Esse ano, procurei aqui em Encruzilhada e não encontrei. Fui, então, a Porto Alegre, e saí a procurar pelas lojas de peças usadas, lá no fim da Protásio Alves. Nenhuma loja tinha. Fui aconselhado a procurar em um ferro velho, no beco do Carvalho. Estava fechado. Já estava meio decepcionado quando encontrei um outro ferro velho, no mesmo beco. Cheguei, entrei e perguntei sobre a ventoinha.Não tinha. Mas o dono, o “Xeré”, disse que podia encontrar uma para mim. Que eu ligasse para ele à tarde. Certo, saí a procurar outras coisas, e à tarde liguei. De fato, o Xeré havia encontrado, não uma, mas duas ventoinhas. Marcou uma hora e lá fui eu, novamente, rumo ao beco do Carvalho.
Bom, o Xeré me cobrou cinqüenta reais pelas duas ventoinhas. Tentei pechinchar, mas ele foi taxativo. Disse que havia rodado longe para buscá-las e que era bom eu comprar as duas, porque “não está fácil de encontrar”.
Então paguei, peguei as ventoinhas e vim embora para esses pagos. Na viagem, vinha pensando no Xeré e nas ventoinhas. Quanto valeriam as ventoinhas em arroz? Pensei que poderia, afinal de contas, ter trocado com ele, produto por produto. O dele e o meu. Ferro velho e arroz. Cinqüenta pilas são o quê, três sacos de arroz?
Cento e cinqüenta quilos de arroz por uns três quilos de ferro. Descascando, daria mais de cem quilos. Segundo o IBGE, cada brasileiro consome cinqüenta quilos de arroz por ano. Então, aí está. Arroz para o Xeré, e sua família por duas ventoinhas de Opala anos 70.
Oferta e procura. Pombas, até houve um político que quis revogar esta lei. Nesses casos, devia mesmo. O que se faz com peças de Opala velho? Nem se fabrica mais esse veículo, e quem ainda tem, usa ventoinha de plástico, que funciona muito melhor. O destino delas era sucata mesmo. Mas lá havia alguém que estava disposto a fazer a troca por três sacos de arroz.
Bem, pensei, afinal de contas as ventoinhas irão durar uns três anos. Um ano de arroz para o Xeré por três anos de ventoinhas para mim. Tem lá sua justiça. Na hora, pensei que devia ter levado arroz para trocar pelas peças. Mas haveria, nesse caso, um problema prático. Esse volume de arroz não cabe no meu carro.